28 de dezembro de 2008

Maysa e eu: o desespero de amar




A voz é um instrumento magnífico. Por meio dela é possível imaginar outras searas e descobrir texturas diferentes da personalidade de uma pessoa. A primeira vez que lembro ter ouvindo a voz de Maysa foi em 1986 durante a minissérie 'Anos Dourados', de Gilberto Braga e exibida pela TV Globo com a música 'Franqueza'. Aquela voz mais grave, o calor e a intensidade de cada palavra cantada ficaram guardados na minha memória, afinal, não perdia um dia do romance de Maria de Lourdes e Marcos, interpretados por Malu Mader e Felipe Camargo.

Alguns anos depois lendo entrevistas de Cazuza, de quem sou fã, me deparei com alguns nomes que faziam a sua cabeça: Maysa, Caio Fernando Abreu, Lupicínio Rodrigues e Clarice Lispector. E não é que eu também adolescente fiquei vidrado nessa turma?! Mas a paixão por Maysa foi arrebatadora. Vivia no Sebo Cultural lendo os encartes ou textos de apresentação dos LPs dela. Devido à dificuldade de encontrar os discos de Maysa nos dias de hoje minha discografia dela se resume a apenas seis CDs e várias mp3 encontradas pela net.

Quanto mais eu conhecia mais me apaixonava pela ousadia, estilo impresso na Música Brasileira e desenvoltura porque passava por vários estilos e trafegava tão bem no campo do samba-canção, bossa nova, jovem guarda ou no repertório mais preto de Vinícius como em 'O canto de ossanha'.

A escrita de Maysa trouxe novidade para a Música Brasileira. Ao lado de Dolores Duran, Maysa cravou na cultura brasileira não apenas a voz enquanto instrumento, mas deu vazão aos anseios, dores, paixões, desejos, ironias e desprezo a partir de uma perspectiva feminina. O público acostumado a ouvir mulheres cantando composições feitas por homens se depararam com uma mulher expondo em praça pública de forma confessional suas fraturas em forma de arte. Maysa era intensa, quase febril.

Nos dias de hoje ouvindo atentamente as cantoras não é muito difícil identificar sua influência na carreira de nomes como Gal Costa (que regravou na década de 80 'Alguém me disse', cantado com perfeição por Maysa); Adriana Calcanhotto que em seu primeiro disco Enguiço cantou o verso 'Meu mundo caiu' na canção 'Nunca' de Lupicínio Rodrigues; de Maria Bethânia que regravou 'Resposta' no disco 'Diamante Verdadeiro'... da escrita feminina e raivosa de Fátima Guedes.

A gravação mais tocante e bela de 'Eu sei que vou te amar' é de Maysa. O grande público a desconhece ou pouco sabe a seu respeito. Muito de sua importância para a Música Brasileira e no seleto time das mulheres ousadas à frente de seu tempo serão vistas em formato compacto na minissérie que a Globo exibirá a partir do dia 5 de janeiro. Eu fiquei em êxtase quando soube há um ano, tempo de ansiedade para ver toda a trajetória dela ser resgatada da forma que merece. Era uma grande dama da canção.

Suas composições ao todo somam apenas 26. Parecem poucas, no entanto, essas foram suficientes para criar um estilo próprio de escrita recheadas de sentimentos. Sim, as letras de Maysa são confessionais e passagem longe do lirismo ou inventividade de artista que fica a imaginar. Maysa era um vulcão de sensações e isto tudo está nos discos.

Para muitos Maysa era a rainha da fossa, da dor de cotovelo apenas. Eu a considero a grande dama da música contemporânea brasileira ao lado de Eliseth Cardoso, Angela Maria e Dalva de Oliveira. O que a diferenciava era o poder da escrita e a carga emotiva que impunha às canções dos outros. Como não acreditar que 'Primavera' de Vinícius e Carlos Lyra não é de fato de Maysa? Dá para imaginar que 'Demais' de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira não era dela?

Maysa embora associada ao samba-canção e a fossa, foi uma cantora pré bossanovista e antecipou o conceito de eclética, só popularizado na década de 90. Gravou músicas da Bossa, passeou pelo iê-iê-iê da jovem guarda, o lirismo de Geraldo Vandré a musicalidade de Coler Porter, Roberto Cantoral (La Barca) e Jacques Brel. Uma artista versátil que cantava em inglês, espanhol, francês...

Maysa era tão intensa quanto o verde de seus olhos de pantera. Suas músicas tão explosivas quanto um peito inflamado pela paixão. E eu atento a tudo isso do lado de cá... silenciosamente ouvindo.

2 comentários:

Fernando Campos disse...

Também estou doido para assistir a minissérie. Comecei a ouvir, esses dias, algumas músicas da Maysa. Conhecia algumas!!! Tô na expectativa também...

Diego disse...

Estou Ancioso pra assitir essa minissérie...Nem conheço Maysa, mas como você falou tanto dela e seus gostos são tão bons, estou curioso....Viva Maysa...rsrsrs
abraços