12 de dezembro de 2008

Deveras sente...

Foto: Aldenor Souza Filho

Visceral. Essa é das poucas palavras que podem definir algum viés do que sou, penso e como ajo. Tudo de forma intensa e devastadora. Antes, isso me tornava infeliz e inquieto. Nos dias de hoje, apenas inquieto porque quero sempre mais, não aceito o mínimo do pouco nem acho que tudo pode ser simplório ao invés de simples.

Esses dias tenho pensado em significados de alteridade, tolerância, entendimento de si e do outro. Já me disseram que meu destino era a solidão. Não solidão como estado de estar só, sem companhia, mas a solidão instrinsecamente como destino, vazio, o que não concordo. A intensidade com que se vive as coisas dá destino a tudo mais. Por ser visceral e desprendido me jogo às coisas, às situações e às pessoas de maneira quase que inconsequente aos olhos de terceiros, mas essa é a única salvação que se pode ter pra quem sente tudo tão intenso. E isso não tem a ver com domar os sentimentos ou intintos. Tem a ver com a forma como transpomos a vivência desses sentimentos, sensações, instintos não apenas para sobreviver, mas para viver.

Desde criança sempre me identifiquei com os que sentiam intensamente as coisas, por isso, fui transgressor durante muito tempo do meu próprio tempo; por isso mesmo, fui transgressor de minha própria razão. E hoje vendo tudo isso percebo que o aspecto visceral continua vivo em mim, pulsando porque nada superficial me interessa. Nada mais ou menos me provoca algum sentimento: nem de tédio, compaixão ou pena.

Esses dias falando durante a terapia me dei conta porque a quarta-feira tinha sido tão revolta e insuportável: dezembro é um mês de ausências. Mês em que sinto tudo de outra forma por ter vivido tão intensamente o amor de meus dois avós com quem passava as festas de fim de ano; porque em dezembro desfrutava do sol, do calor e dos beijos do melhor amor que alguém poderia ganhar em reciprocidade; porque amigos que outrora estavam, hoje não estão mais. Ausências... Inúmeras ausências... E chegadas de novos 'sentir' e 'viver'.

Quem lê pode achar que é exposição demais ou loucura, mas eu sei a medida certa das minhas dores. A maior talvez seja esse amor que transborda pela vida, às vezes, sem ao menos eu conseguir direcioná-lo a tempo de evitar as enchentes.

4 comentários:

Belle disse...

Que lindo...
Amar demais as vezes trás uma certa imcompreensão, sentir demais, desejar demais...
Mas estou com você...nada morno é legal...ou é ou não é!
Que me critiquem, mas prefiro o 8, senão o 80.
Um dia desses escutei que água morna não serve nem pra chá, condordo!
Então vamos nos queimar no amor mais quente ou ter a paz mais esperada...mas morno não!
TEADORO!

Diego disse...

Nem todo mundo é capaz de amar com você Hardman...Admiro o que cultiva, o que tem importancia para você. Seu carater transborda em todas as direções...Abraços pra ti

Fernando Campos disse...

Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles

Wagner Hardman Lima disse...

Nando,

fiquei engasgado com esse poema. Cecília Meireles era fenonemal. Se não existisse era preciso um milagre para criá-la. ahauhaua


adorei!