Afeto e desejo raramente se encontram na vida dos homens
IVAN MARTINS -
31/10/2012 09h07
Afeto e desejo são sentimentos gêmeos. Em alguns momentos da existência
eles se ignoram, em outros parecem inseparáveis. Na vida dos homens,
mais do que das mulheres, eles são como rios paralelos que às vezes se
esbarram, mas raramente se encontram. Por isso é tão mais difícil para
os homens encontrar prazer e sentimentos duradouros. Por isso não
conseguem estar inteiros nas relações – porque vivem divididos por
dentro.
Acho que essa dificuldade explica parte das contradições que os homens
exibem o tempo inteiro. “Ele disse que estava apaixonado, mas logo
depois mostrou que não estava”: era o desejo falando, sem o amparo
duradouro do sentimento. “Ele foi embora, mas voltou logo depois,
dizendo que me amava”: o corpo da outra precisou estar ausente para o
sujeito perceber os próprios sentimentos. “Ele parecia tão interessado
quando eu não queria, depois que eu me apaixonei ele sumiu”: o desejo
enlouquece com o que ainda não tem, e pode se cansar rapidamente depois
de saciado. Afetos são mais constantes e duradouros.
Nenhum desses comportamentos é exclusivamente masculino, mas eles são
mais visíveis nos homens – embora a gente escute reclamações, cada vez
mais frequentes, de que as mulheres estão agindo de forma igualmente
egoísta e superficial. Num mundo ordenado cada vez mais profundamente
pela lógica da posse e do consumo, ninguém está imune a se portar como
colecionador serial de corpos e pessoas descartáveis. Pode ser, mas o
convívio sugere que mulheres ainda são mais atentas aos próprios
sentimentos, e que eles falam mais de perto com as sensações delas de
prazer.
Dou um exemplo: mesmo homens maduros podem se descobrir à beira de um
colapso nervoso ou de uma depressão enquanto se relacionam,
simultaneamente, com um bando de mulheres. O sujeito está péssimo, mas
continua ali, tentando resolver sua angústia num mar de... mulheres. É
mais difícil achar uma mulher numa situação dessas. Mesmo aquelas que
poderiam abusar do corpo ou do carisma agem de outra forma. Uma rápida
peneira afetiva faz com que o bando de candidatos ou fiquetes seja
reduzido a um (ou dois) que tenham significado emocional. O resto dança.
As mulheres são menos propensas a se perder num mar de corpos. Os
homens, para o bem e para o mal, parecem às vezes ter nascido para isso -
ainda que os corpos sejam somente imaginários.
Outro dia, uma aluna de jornalismo que está fazendo um
trabalho
de conclusão de curso me fez a pergunta de um milhão de reais: o que é o
amor para você? Na hora, claro, eu respondi bobagens prolixas. Horas
depois me ocorreu uma resposta mais simples, que tem a ver com o assunto
do qual estamos tratando. Amor é foco. Amar é sentir que a vida se
condensa em torno de um sentimento e de uma pessoa, e por isso se torna
deliciosamente simples, tanto quanto intensa. As dúvidas e os problemas
recuam para o segundo plano. O tédio, o medo, a confusão se dissolvem
num grande sentimento claro e límpido. Ele é como o facho de luz que
atravessa uma lente e se transforma, do outro lado, num único ponto
rutilante.
Essa definição de amor significa o contrário da multidão de corpos. Ela
é sinônimo de escolha e singularização. Talvez por isso seja difícil de
atingir, e ainda mais difícil de manter. O desejo que se desloca de um
corpo para outro, sem passar pelo filtro rigoroso e constante do afeto, é
o contrário da seleção. Ele não implica em renúncia nenhuma, e talvez
não leve a lugar algum.
Não sei se o desejo inquieto dos homens algum dia será coletivamente
diferente, mas, pessoalmente, individualmente, ele muda. Com o passar do
tempo, cresce de maneira imperceptível a vinculação entre sentimento e
desejo na vida dos homens. O sujeito não se torna necessariamente mais
constante, mas o desejo dele começa a ser subordinado a critérios que as
mulheres talvez reconheçam, por serem afetivos – ele deseja quem
conhece melhor, deseja mulheres de quem gosta. Aquela dona escultural de
quem ele nem sabe o nome é uma delícia, mas não é com ela que ele sonha
embaixo do chuveiro.
O desejo profundo passa a incluir formas de
intimidade e acolhimento. Continua volátil, ainda insiste em ser voraz,
mas cada vez está mais vinculado aos afetos. Os rios do amor e do desejo
cuidadosamente se aproximam. Talvez uma vida não seja suficiente para
que se juntem, mas quem realmente sabe?
(
Ivan Martins escreve às quartas-feiras)
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/ivan-martins/noticia/2012/10/os-rios-dentro-de-nos.html